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A distância exata

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Até onde se pode ir na direção de alguém sem verdadeiramente partir de lugar nenhum? Às vezes penso nisto... Qual é a distância exata entre lembrar uma voz e querer ouvi-la? Entre ter qualquer coisa para contar e imaginar, por um instante, como seria contá-la? Em que momento uma vontade tão pequena deixa de ser inocente e começa a tocar numa fronteira que não sabemos sequer onde foi desenhada? Talvez existam coisas que não devêssemos perguntar. Mas pergunto. Até quando podemos sentir falta de alguém sem que essa falta signifique que nos falta alguma coisa? Esta é a parte que não compreendo. Podemos estar bem. Podemos amar a casa onde chegamos ao fim do dia, conhecer o som dos passos que vivem connosco, a mão que ficou quando a vida se tornou menos bonita, o rosto que assistiu aos nossos dias difíceis sem se afastar. Podemos amar tudo isso. Amar verdadeiramente. E ainda assim. Uma voz. Às vezes basta a memória de uma voz. E de repente existem tantas coisas que ficaram por contar. Coisas...

Feira medieval e…vidas passadas

  Numa feira medieval, uma menina pequenina deu-me a mão. Assim. Sem apresentações, sem autorização parental e sem qualquer preocupação com o facto de eu poder ser uma pessoa pouco recomendável. — Levas-me ali àquela senhora? Olhei para a senhora. Depois para a menina. — Mas… é a tua mãe? — Não. Quero um papelito daqueles. — E onde está a tua mãe? Não respondeu. Sorriu e puxou-me pelo braço. — Anda. E eu fui. É impressionante o poder de uma criança pequena. Um adulto pode passar meia hora a tentar convencer-nos de alguma coisa, apresentar argumentos, gráficos, estatísticas e até um PowerPoint. Uma criança dá-nos a mão, diz «anda» e nós vamos. Lá fui, então, de mãos dadas com uma desconhecida de metro e pouco, até à tal senhora. Quando chegámos à banca, percebi finalmente o que eram os famosos papelitos. Havia duas caixas. Numa estava escrito: VIDAS PASSADAS — CRIANÇAS Na outra: VIDAS PASSADAS — ADULTOS Olhei para a menina. A menina olhou para as caixas. — Então, pequena, o que quer...

Todos temos um passado. Mas será que temos apenas um?

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  Todos temos um passado. Mas será que temos apenas um? Só vivemos uma vida. Só houve uma infância, um primeiro amor... Os acontecimentos são os que são.  O mesmo dia pode viver em nós de maneiras diferentes. Aquilo que, aos vinte anos, parecia um fracasso pode revelar-se, aos quarenta, o momento que mudou tudo. Uma pessoa que julgávamos ter vindo para nos destruir pode acabar por ser aquela que mais nos ensinou. A memória permanece, mas a história que contamos sobre ela transforma-se.  E depois existe outro passado.  O passado que os outros conhecem de nós.  Os nossos pais guardam uma versão. Os amigos outra. Os colegas outra. Os filhos outra. Há quem nos recorde como corajosos. Há quem nos recorde como inseguros. Há quem conserve apenas um gesto, uma frase, um sorriso. Nenhuma dessas versões é mentira. Mas nenhuma é completa.  Talvez passemos a vida inteira a escrever o mesmo passado com palavras diferentes.  Os acontecimentos não mudam.  Mas nó...

Há Sonhos que Nunca Acordam

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  (imagem gerada por IA) Há sonhos que desaparecem mal abrimos os olhos. Dissolvem-se na luz da manhã, como se nunca tivessem existido. E depois há outros. Sonhos que permanecem durante anos, silenciosos, quase vivos, como se tivessem encontrado uma forma de continuar a respirar dentro de nós. O sonho mais estranho que tive até hoje foi também dos mais bonitos. Vi um santuário a elevar-se lentamente no céu. Ardia intensamente, envolto em chamas douradas que iluminavam as nuvens, mas não havia destruição. O fogo não consumia. Transformava. Era um fogo sereno, quase sagrado, como se queimasse apenas aquilo que já não precisava de existir. Enquanto o santuário subia em direção ao infinito, eu caminhava na sua direção. Não havia medo. Não havia pressa. Havia apenas uma estranha certeza de que aquele era exatamente o caminho que devia seguir. Vestia um longo vestido branco, leve como se fosse feito de luz. O meu cabelo estava entrançado numa única trança comprida, simples, e sentia-me c...

A teoria das cordas devia ser aplicada às relações

 Porque é que não conseguimos simplesmente aceitar aquilo que temos e descansar? Porque é que continuamos a questionar? Porque é que, mesmo amando, às vezes nos perguntamos se teríamos sido mais felizes de outra maneira? Será ingratidão? Será falta de amor? Ou será apenas a condição inevitável de sermos humanos? Às vezes penso que nascemos condenados a uma espécie de nostalgia das possibilidades. Como se uma parte da nossa consciência estivesse sempre virada para as portas que fechámos, tentando adivinhar o que existia do outro lado. Talvez os animais sejam mais sábios. Não se interrogam sobre os caminhos que não seguiram. Não vivem a lamentar os verões que não viveram, os amores que não escolheram ou as palavras que não disseram. Nós, pelo contrário, carregamos esse privilégio estranho e cruel chamado consciência. E a consciência é uma janela. Mas é também uma ferida. Porque ver significa imaginar. E imaginar significa criar mundos. Mundos onde partimos. Mundos onde ficámos. Mundo...

Em reunião

 Há quem entre numa reunião com um bloco de notas. Eu entro com um cérebro que se comporta como um navegador com cinquenta separadores abertos. Todos ativos. Nenhum relacionado entre si. À minha volta está tudo muito organizado. Há pessoas a falar com clareza, a apresentar ideias, a construir raciocínios sólidos, quase geométricos. Eu acompanho. Juro que acompanho. Mas a minha mente tem um sistema operativo próprio. Enquanto uma colega diz: — Precisamos de simplificar os procedimentos. Eu estou a olhar para um agrafador. Não um agrafador qualquer. Aquele agrafador. Pesado. Cinzento. Ligeiramente gasto pelo tempo. E, sem qualquer autorização, o meu cérebro pergunta: Quem foi a primeira pessoa da História que olhou para duas folhas soltas e pensou: Isto precisava era de um pequeno pedaço de metal para as convencer a ficar juntas... Volto. Ainda estão a falar. Aparentemente ninguém questionou a existência dos agrafos. Curioso. Cinco minutos depois alguém partilha um documento. Toda a ...

A miúda do baloiço

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  Ao fundo do jardim, onde a neblina da manhã parecia permanecer mais tempo do que no resto do mundo, havia um baloiço antigo suspenso sob uma árvore enorme de ramos tortos cobertos de hera húmida. Movia-se lentamente, mesmo quando o vento parava por completo, como se obedecesse a um ritmo invisível escondido naquele lugar. Sentada nele estava uma miúda morena de cabelos compridos, descalça, envolvida num vestido branco rendado que parecia tecido da própria névoa. A renda deslizava suavemente sobre as pernas e confundia-se com a luz pálida da manhã, dando-lhe um aspeto quase irreal, como se pudesse desaparecer caso alguém tentasse aproximar-se demasiado. No colo descansava um caderno antigo de capas gastas, preso por folhas soltas e pequenos pedaços de papel esquecidos entre as páginas. A mão movia-se depressa, impulso após impulso, escrevendo frases que pareciam surgir antes mesmo de serem pensadas. Então um pequeno pássaro escuro pousou delicadamente sobre o caderno aberto. O pás...