Há Sonhos que Nunca Acordam

 

(imagem gerada por IA)

Há sonhos que desaparecem mal abrimos os olhos. Dissolvem-se na luz da manhã, como se nunca tivessem existido. E depois há outros. Sonhos que permanecem durante anos, silenciosos, quase vivos, como se tivessem encontrado uma forma de continuar a respirar dentro de nós. O sonho mais estranho que tive até hoje foi também dos mais bonitos. Vi um santuário a elevar-se lentamente no céu. Ardia intensamente, envolto em chamas douradas que iluminavam as nuvens, mas não havia destruição. O fogo não consumia. Transformava. Era um fogo sereno, quase sagrado, como se queimasse apenas aquilo que já não precisava de existir. Enquanto o santuário subia em direção ao infinito, eu caminhava na sua direção. Não havia medo. Não havia pressa. Havia apenas uma estranha certeza de que aquele era exatamente o caminho que devia seguir. Vestia um longo vestido branco, leve como se fosse feito de luz. O meu cabelo estava entrançado numa única trança comprida, simples, e sentia-me curiosamente em paz. Como se aquele momento me fosse familiar, apesar de impossível. E, como tantas outras vezes ao longo da minha vida, não caminhava sozinha. Ao meu lado seguiam dois tigres. Um de cada lado. Sempre tive tigres nos meus sonhos. Aparecem desde que me lembro de sonhar. Nunca me perseguiram. Nunca me atacaram. Nunca senti que representassem perigo. Pelo contrário. Sempre os senti como guardiões silenciosos, uma presença firme, serena e protetora. Caminham ao meu lado sem dizer uma palavra, como se apenas estivessem ali para garantir que nunca perco o caminho. Nesse sonho aconteceu exatamente o mesmo. Os dois tigres acompanhavam-me até ao santuário, em absoluto silêncio. Nenhum rugido. Nenhuma ameaça. Apenas a tranquilidade de quem sabe que pertence àquele lugar tanto quanto eu. Entrei no santuário. E foi aí que acordei. Durante muito tempo pensei naquele sonho apenas como uma das muitas histórias estranhas que a nossa mente inventa enquanto dormimos. Mas, pouco tempo depois, a minha vida mudou inevitavelmente. Mudei de cidade. Deixei para trás uma vida inteira e comecei outra completamente diferente. Só mais tarde me apercebi de um detalhe que nunca consegui ignorar: aquele santuário existe realmente. É um dos lugares onde sempre procurei paz, silêncio e algum reencontro comigo própria. Um lugar onde, muitas vezes, senti que o mundo abrandava por instantes. Talvez tenha sido apenas uma coincidência. Ou talvez os sonhos conheçam partes de nós que a consciência demora muito mais tempo a descobrir. Nunca soube interpretar aquele sonho. E, sinceramente, hoje já nem procuro fazê-lo. Prefiro guardá-lo exatamente como o vivi: um santuário que se elevava entre as chamas sem nunca se destruir; uma mulher vestida de branco que caminhava sem medo; dois tigres que, uma vez mais, escolheram acompanhá-la. Há mistérios que talvez não existam para ser resolvidos. Existem apenas para nos lembrar que nem tudo o que é verdadeiro precisa de uma explicação.

E vocês? Qual foi o sonho mais marcante que alguma vez vos acompanhou?


Comentários

  1. Olá Inês. Também tenho alguns sonhos que ficam. Outros lembro-me deles depois de acordar mas depois esqueço-me completamente. Quando me dá para isso descrevo-os para me lembrar deles mais tarde. Foi o que aconteceu com este meu sonho que leste. Acho que temos algumas coisas parecidas. Gostei muito do teu texto da teoria das cordas. Queria ter-te respondido, mas eram tantas as coisas que me ocorriam que acabei por desistir. És uma excelente filósofa. Beijinhos

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    1. Filósofa não... 😅 Sou só uma pessoa que pensa demais e vai escrevendo pelo caminho. Mas gostei muito de ler o teu comentário. Obrigada, mesmo. Um beijinho.

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  2. Interessante.
    Sobretudo, a questão relacionada com os tigres.
    Houve um tempo que sonhei muito com lobos.
    Também não senti que corria perigo.
    Aliás, fiquei sempre com a sensação que queriam dizer-me algo...ou até que pertendiam guiar-me.
    Na verdade, sabendo que há todo um potencial que o nosso cérebro, aparentemente, não utiliza, se calhar "algo acontece" enquanto dormimos.
    Contudo, permanecem o "como" e "porquê" ou "com que finalidade".
    Sabemos que ao longo do tempo os sonhos têm despertado todo tipo de intrepretações e fazem parte de livros de importância inegável como a bíblia.
    Quantas profecias têm como base um sonho? (e olha que a visão de um altar é frequente!)
    Por isso sou inclinado a concordar contigo e sim, "nem tudo o que é verdadeiro precisa de uma explicação."
    Pois, só Deus sabe...


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    1. Curiosamente, a parte dos lobos fez-me sorrir, porque percebi exatamente o que quiseste dizer. Talvez nunca saibamos o "como" nem o "porquê", mas gosto da ideia de que ainda existem mistérios que nos lembram que nem tudo cabe numa explicação. Obrigada pela tua partilha. 😊

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