A teoria das cordas devia ser aplicada às relações
Porque é que não conseguimos simplesmente aceitar aquilo que temos e descansar?
Porque é que continuamos a questionar?
Porque é que, mesmo amando, às vezes nos perguntamos se teríamos sido mais felizes de outra maneira?
Será ingratidão?
Será falta de amor?
Ou será apenas a condição inevitável de sermos humanos?
Às vezes penso que nascemos condenados a uma espécie de nostalgia das possibilidades. Como se uma parte da nossa consciência estivesse sempre virada para as portas que fechámos, tentando adivinhar o que existia do outro lado.
Talvez os animais sejam mais sábios. Não se interrogam sobre os caminhos que não seguiram. Não vivem a lamentar os verões que não viveram, os amores que não escolheram ou as palavras que não disseram.
Nós, pelo contrário, carregamos esse privilégio estranho e cruel chamado consciência.
E a consciência é uma janela.
Mas é também uma ferida.
Porque ver significa imaginar.
E imaginar significa criar mundos.
Mundos onde partimos.
Mundos onde ficámos.
Mundos onde amámos outra pessoa.
Mundos onde fomos mais felizes.
Ou mais infelizes.
E talvez seja por isso que nunca habitamos totalmente o presente.
Porque uma parte de nós continua a visitar, em silêncio, as vidas que não viveu.
Mas será que quem está numa relação deixa de questionar?
Acho que não.
Pelo contrário.
Acho que quem ama verdadeiramente questiona ainda mais.
Não porque ame menos.
Mas porque sabe o peso das escolhas.
Porque escolher uma pessoa é, inevitavelmente, renunciar a todas as outras.
Escolher uma vida é renunciar a mil vidas possíveis.
E talvez seja impossível para um ser consciente não sentir, de vez em quando, o luto silencioso de tudo aquilo que nunca acontecerá.
Mas questionar não significa necessariamente querer partir.
Nem significa que nos enganámos.
Talvez signifique apenas que continuamos vivos.
Porque talvez a fidelidade nunca tenha sido a ausência de dúvidas.
Talvez seja a decisão de permanecer apesar delas.
A física quântica ensina-nos que uma partícula pode existir em múltiplos estados até ser observada.
Às vezes pergunto-me se não acontece o mesmo connosco.
Talvez dentro de nós coexistam todas as versões possíveis da nossa vida.
A mulher que ficou.
A mulher que partiu.
A mulher que escolheu outro amor.
A mulher que nunca teve coragem.
E talvez essas versões continuem a vibrar dentro de nós, como cordas invisíveis, lembrando-nos que existiram outros caminhos.
Mas há uma diferença entre o universo e o coração humano.
No universo, todas as possibilidades podem coexistir.
Na vida, não.
Viver é colapsar infinitas possibilidades numa única realidade.
E talvez seja precisamente isso que dói.
Porque cada escolha é também um pequeno funeral.
Cada "sim" contém milhares de "nãos".
E, ainda assim, continuamos.
Porque amar nunca foi encontrar a pessoa perfeita.
Nem encontrar a vida perfeita.
Talvez amar seja aceitar que poderíamos ter sido felizes de outras formas, com outras pessoas, em outras cidades, e mesmo assim escolher cuidar daquilo que temos nas mãos.
Não por resignação.
Mas por presença.
Porque talvez a felicidade não seja deixar de questionar.
Talvez seja compreender que a dúvida faz parte do amor.
E que a paz não nasce quando todas as perguntas desaparecem.
A paz nasce quando percebemos que nenhuma resposta será alguma vez completa.
E talvez seja essa a nossa tragédia.
Mas também a nossa beleza.
Porque as estrelas não se interrogam.
O mar não se interroga.
As árvores não se interrogam.
Mas nós interrogamo-nos.
Porque amamos.
Porque perdemos.
Porque imaginamos.
Porque recordamos.
Porque somos feitos não apenas daquilo que vivemos, mas também de tudo aquilo que fomos capazes de sonhar.
E talvez o amor mais difícil não seja amar outra pessoa.
Talvez seja aprender a amar a vida que escolhemos sem odiar todas as outras que deixámos para trás.
E talvez ninguém consiga fazê-lo perfeitamente.
Talvez todos, em silêncio, carreguemos uma pequena saudade de universos que nunca existiram.
E talvez isso não seja um sinal de que escolhemos mal.
Talvez seja apenas a prova de que, apesar de tudo, continuamos profundamente humanos.
Depois de anos a pensar sobre isto, cheguei à conclusão de que a teoria das cordas devia ser aplicada às relações.
Porque, aparentemente, sou capaz de amar uma pessoa, construir uma vida inteira com ela, partilhar impostos, dores lombares e passwords da Netflix e, ainda assim, de vez em quando, perguntar-me:
E se tivesse escolhido outro?
Não porque queira outro.
Mas porque o meu cérebro humano não sabe estar quieto.
Tu estás ali, feliz, a comer uma sopa, e ele aparece:
Boa noite. Lembras-te daquele rapaz de 2008 que te disse que gostava de ti? Achas que, se tivesses casado com ele, agora viverias numa quinta em Itália a fazer compotas artesanais?
Não, cérebro.
Provavelmente estaria divorciada e com intolerância ao glúten.
Mas obrigada.
E depois dizem:
Quando encontrares a pessoa certa, vais saber.
Claro.
Porque toda a gente sabe que a pessoa certa vem acompanhada de um certificado de garantia, duas testemunhas e uma luzinha ao fundo da sala.
A verdade é que eu já duvidei de tudo.
Da profissão.
Do corte de cabelo.
Das cortinas.
Do sofá.
Do colchão.
Da marca do azeite.
E, uma vez, passei três dias emocionalmente devastada porque achei que tinha comprado o tapete errado.
Três dias.
Um tapete.
Como é que eu não haveria de questionar decisões ligeiramente mais importantes como O RESTO DA MINHA VIDA?
E há pessoas que dizem:
Se tens dúvidas, é porque não amas.
Que paz de espírito invejável.
Às vezes, nem sei o que quero para jantar e querem que eu tenha uma certeza absoluta sobre os próximos quarenta anos?
A única pessoa que parece verdadeiramente feliz cá em casa é o cão.
Nunca o apanhei a olhar para a janela a pensar:
E se tivesse escolhido aquela família do Porto em vez destes malucos?
Não.
Está ali.
Com metade da língua de fora.
Em paz.
Porque o auge da espiritualidade é, aparentemente, cheirar postes e receber um biscoito.
E nós?
Nós passamos dois dias sem falar com a pessoa que amamos porque ela respondeu "ok" em vez de "ok ❤️".
Dois dias.
Por causa de um coração vermelho.
Imagino os cientistas da NASA a descobrir vida em Marte e, ao mesmo tempo, uma mulher a chorar na cozinha porque o marido respondeu:
"👍"
Aquele polegar.
A arma mais destrutiva da história da humanidade.
Porque um "👍" pode significar:
"Perfeito."
"Estou ocupado."
"Concordo."
"Vai-te lixar."
"Estou a morrer por dentro."
Ou simplesmente:
"Tenho os dedos gordos."
E é isto. Às vezes discutimos porque um disse:
— Faz o que quiseres.
E o outro, ingénuo, faz mesmo.
E talvez Deus, ou o Universo, ou quem quer que tenha criado esta maravilhosa confusão, olhe para nós com uma ternura e pense:
Eu dei-vos galáxias, auroras boreais e baleias…
E vocês passam uma semana de trombas porque ninguém descongelou o frango.
E talvez o verdadeiro amor seja isso.
Duas pessoas profundamente imperfeitas.
Duas almas cheias de dúvidas.
Dois seres que, apesar das crises existenciais, das teorias sobre universos paralelos e das discussões sobre quem é que deixou a luz da casa de banho acesa, continuam a perguntar:
— O que é que queres para jantar?
— Não sei. Escolhe tu.
E, meus amigos, é aí que começa o verdadeiro caos.
Porque nem a física quântica, nem a teoria das cordas, nem os buracos negros, nem os maiores filósofos da História conseguiram responder à pergunta mais complexa do Universo:
Então, mas onde é que te apetece ir comer?
E o mais assustador é que, depois de meia hora a dizer "escolhe tu", acabamos sempre no mesmo sítio.
Tal como na vida.
A pensar demais.
Inês...
ResponderExcluirA tua introspecção sobre as escolhas que fazemos, a felicidade que esperamos alcançar, as dúvidas que habitam em nós e a importância que damos a determinadas atitudes, deixam-me a questionar se...ou melhor...não deixam.
De facto, acabas de fazer um apanhado do que nos consome e persegue, impiedosamente e estupidamente, ao longo do tempo que por cá andamos.
E, o mais espantoso, é que mesmo quando percebemos continuamos presos, cativos na realidade que criamos dia após dia, incapazes de nos libertar das garras daquilo que alguns chamam de destino.
Contudo, depois de te ler, de sorrir e de refletir, neste momento, pergunto-me : Mas como faço, para escapar a toda esta tramoia em que caí?
E...nada...
Pois, normalmente, é aqui que se começa com teorias e filosofias!
Mas, neste momento, neste preciso momento que te escrevo, as dúvidas amontoam-se!
Talvez porque o cosmos, que vive albergado entre as nossas orelhas, guarde sigilosamente as respostas que tanto procuramos.
Aparentemente, resta-nos viver na expectativa de que um dia, tudo será...entendido.
Até lá...bem...vou ter de comer sopa de agrião logo à noite, apesar de não me apetecer nada!
HUG
Foi só um desabafo de alguém que pensa demais… dizem 😅
ExcluirNada muito profundo nem conclusões da vida, só aquela fase em que a cabeça não sabe bem onde pousar, sabes? Desconfio que só quando estou a dormir é que não penso em nada… e mesmo assim os meus sonhos às vezes ainda me deixam a pensar um bocado depois. Mas gostei do que disseste. Acho que no fundo isto também é mais simples do que parece. A gente pensa muito, mas a vida vai acontecendo na mesma. E pronto… entre pensamentos e dias mais leves, vai-se andando. Beijinhos, Fox
Simplesmente adorei esta partilha!
ResponderExcluirConsidero que a vida é feita constantemente de infinitas possibilidades e muitas isso só não muda uma vida porque continuamos presos ao comodismo do quotidiano e ao receio de não nos sentirmos preparados para o inesperado.
Tenho alguém especial que já quis viver uma vida fantasiada comigo, com preocupações, angustias, ciúmes, partilhas do dia-a-dia, amuos, discussões, dúvidas... Mas era como se fosse uma vida num universo alternativo em que a realidade era bem diferente porque vivemos em mundos diferentes.
Pessoalmente não penso muito no que poderia ter feito de diferente no passado. Não o posso mudar. Tento sobreviver no presente acreditando que o melhor ainda está para vir. Beijinhos Inês
Miguel, adorei ler-te. Fiquei a pensar que, se existirem mesmo universos paralelos, espero sinceramente que haja um onde eu já tenha escrito o romance perfeito... e outro onde não me esqueço nunca onde deixei as chaves. 😄 Obrigada pela tua reflexão. Um beijinho!
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