A miúda do baloiço
Ao fundo do jardim, onde a neblina da manhã parecia permanecer mais tempo do que no resto do mundo, havia um baloiço antigo suspenso sob uma árvore enorme de ramos tortos cobertos de hera húmida. Movia-se lentamente, mesmo quando o vento parava por completo, como se obedecesse a um ritmo invisível escondido naquele lugar. Sentada nele estava uma miúda morena de cabelos compridos, descalça, envolvida num vestido branco rendado que parecia tecido da própria névoa. A renda deslizava suavemente sobre as pernas e confundia-se com a luz pálida da manhã, dando-lhe um aspeto quase irreal, como se pudesse desaparecer caso alguém tentasse aproximar-se demasiado. No colo descansava um caderno antigo de capas gastas, preso por folhas soltas e pequenos pedaços de papel esquecidos entre as páginas. A mão movia-se depressa, impulso após impulso, escrevendo frases que pareciam surgir antes mesmo de serem pensadas. Então um pequeno pássaro escuro pousou delicadamente sobre o caderno aberto. O pás...