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Mostrando postagens de maio, 2026

A miúda do baloiço

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  Ao fundo do jardim, onde a neblina da manhã parecia permanecer mais tempo do que no resto do mundo, havia um baloiço antigo suspenso sob uma árvore enorme de ramos tortos cobertos de hera húmida. Movia-se lentamente, mesmo quando o vento parava por completo, como se obedecesse a um ritmo invisível escondido naquele lugar. Sentada nele estava uma miúda morena de cabelos compridos, descalça, envolvida num vestido branco rendado que parecia tecido da própria névoa. A renda deslizava suavemente sobre as pernas e confundia-se com a luz pálida da manhã, dando-lhe um aspeto quase irreal, como se pudesse desaparecer caso alguém tentasse aproximar-se demasiado. No colo descansava um caderno antigo de capas gastas, preso por folhas soltas e pequenos pedaços de papel esquecidos entre as páginas. A mão movia-se depressa, impulso após impulso, escrevendo frases que pareciam surgir antes mesmo de serem pensadas. Então um pequeno pássaro escuro pousou delicadamente sobre o caderno aberto. O pás...
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Desvio Impercetível

Há qualquer coisa de profundamente inquietante no desejo de capturar um instante. Como se, por um breve momento, acreditássemos que a beleza pode ser mantida imóvel antes de desaparecer. Talvez seja isso a fotografia: uma tentativa silenciosa de resistir ao desaparecimento das coisas. Nem sempre fotografamos o que vemos. Às vezes fotografamos aquilo que sentimos enquanto olhamos. A luz sobre uma parede antiga, o nevoeiro suspenso antes da chuva, uma janela acesa num lugar distante. Muitas vezes, nem é pelo objeto em si, mas pela atmosfera que o envolve. Como se existissem lugares e momentos que carregassem uma espécie de presença difícil de explicar, mas impossível de ignorar. E talvez seja precisamente por isso que me atraem coisas onde quase ninguém repara. Detalhes pequenos, silenciosos, aparentemente banais. Uma cadeira vazia junto a uma janela, tinta a desfazer-se numa parede húmida, reflexos distorcidos no vidro, sombras desalinhadas, flores já quase secas. Há algo de profundamen...

Não-linear

Há experiências que não pertencem ao tempo, apenas àquilo que deslocam. Não se deixam medir pelo antes nem pelo depois. Instalam-se fora dessa sequência previsível onde tudo costuma fazer sentido, e ainda assim alteram silenciosamente o eixo das coisas. Há um momento — quase impercetível — em que algo muda de lugar. Não por excesso, nem por falta. Apenas muda. E o que parecia fixo deixa de o ser, sem nunca chegar a quebrar por completo.  Depois, tudo continua. Ou parece continuar. Mas há uma diferença difícil de nomear, como se uma parte tivesse ficado noutro ponto, noutro ritmo, noutro lugar que não se visita, mas que também não desaparece. E é estranho como por fora nada denuncia esse desvio. Tudo permanece aparentemente intacto, sereno, até. Como se o silêncio tivesse aprendido a disfarçar o que nele se agita. Mas por dentro há uma espécie de intensidade contida — não explosiva, não urgente — apenas constante.   Não o silêncio comum — esse ainda tem forma, ainda se reconhece. Mas u...