Feira medieval e…vidas passadas
Numa feira medieval, uma menina pequenina deu-me a mão.
Assim.
Sem apresentações, sem autorização parental e sem qualquer preocupação com o facto de eu poder ser uma pessoa pouco recomendável.
— Levas-me ali àquela senhora?
Olhei para a senhora.
Depois para a menina.
— Mas… é a tua mãe?
— Não. Quero um papelito daqueles.
— E onde está a tua mãe?
Não respondeu.
Sorriu e puxou-me pelo braço.
— Anda.
E eu fui.
É impressionante o poder de uma criança pequena. Um adulto pode passar meia hora a tentar convencer-nos de alguma coisa, apresentar argumentos, gráficos, estatísticas e até um PowerPoint.
Uma criança dá-nos a mão, diz «anda» e nós vamos.
Lá fui, então, de mãos dadas com uma desconhecida de metro e pouco, até à tal senhora.
Quando chegámos à banca, percebi finalmente o que eram os famosos papelitos.
Havia duas caixas.
Numa estava escrito:
VIDAS PASSADAS — CRIANÇAS
Na outra:
VIDAS PASSADAS — ADULTOS
Olhei para a menina.
A menina olhou para as caixas.
— Então, pequena, o que querias?
— Quero saber o que fui numa vida passada.
Claro.
Uma pergunta perfeitamente normal para uma criança daquela idade.
Eu, com cinco anos, queria saber quando começavam os desenhos animados.
Mas tudo bem.
Confesso que fiquei ligeiramente preocupada.
Porque nunca se sabe o que pode sair de uma caixa daquelas.
E se a miúda tirasse um papel a dizer que tinha sido pirata?
Ou bruxa?
Ou, pior ainda, cobradora de impostos?
O que é que eu fazia?
Entregava-a à mãe e dizia:
— A sua filha esteve comigo cinco minutos. Correu tudo bem. Só descobrimos que tem um passado um pouco duvidoso.
A menina meteu a mão na caixa, tirou um papelito e abriu-o.
Os olhos ficaram enormes.
— FUI UMA FADA!
E abraçou-me.
Fiquei genuinamente feliz por ela.
Fada era perfeito.
Fada era bonito.
Fada tinha asas.
— Que giro! — disse eu.
Ela estava radiante.
Eu também.
Pensei que a nossa aventura tinha terminado ali.
Missão cumprida.
Criança entregue à espiritualidade medieval com sucesso.
Mas não.
Ela virou-se para mim.
— Agora és tu.
— Eu?
— Sim.
— Não, eu não quero tirar.
A menina ficou muito séria.
— Vá lá.
— Não.
— Vá lááááá.
— Não quero.
— Mas eu quero muito que tires.
Percebi naquele momento que não tinha qualquer hipótese.
Eu tinha trinta e muitos anos.
Ela teria cinco ou seis.
A negociação estava perdida.
— Está bem.
Estendi a mão para a caixa.
— NÃO!
Assustei-me.
— O quê?!
— Essa é a caixa das crianças!
Apontou para a outra.
— Tu tens de tirar da caixa dos crescidos.
Ah.
Peço imensa desculpa.
Por momentos esqueci-me de respeitar a burocracia das vidas passadas.
Dirigi-me então à caixa dos adultos.
E comecei a pensar que talvez aquilo não fosse uma boa ideia.
Ela tinha sido uma fada.
Uma fada!
Como é que eu ia competir com aquilo?
E se me saísse qualquer coisa terrível?
Carrasco.
Inquisidora.
Pessoa que falava durante os filmes.
Eu só pensava:
Por favor, que não me saia nada que assuste a miúda.
Meti a mão na caixa.
Tirei um papel.
Abri.
E li:
ÓRFÃ.
Fiquei calada.
Dobrei o papel.
— Então? O que foste?
— Nada de especial.
— O que foste?
— Uma coisa.
— Que coisa?
Olhei para ela.
Ela olhou para mim.
Eu não queria dizer.
Não sei bem porquê. Talvez porque, ao lado de uma fada, «órfã» me parecesse uma palavra demasiado triste para uma menina tão pequena.
— Diz!
— Não é assim tão interessante.
— Diiiz!
— Fui… órfã.
Ela ficou a olhar para mim.
Eu preparei-me para uma pergunta difícil.
Ou para uma expressão triste.
Ou para ter de explicar uma palavra que, de repente, me parecia demasiado grande para caber naquela cara pequenina.
Mas ela sorriu.
— Eu fui uma fada.
— Sim. Eu percebi. Tiveste claramente mais sorte no sorteio.
Ela riu-se.
— Tu também foste uma coisa.
— Fui, fui…
Ela continuou a sorrir.
Eu olhei para o meu papel.
— Tu tiras uma fada. Eu tiro isto. Não havia, sei lá… princesa? Astrónoma? Feiticeira simpática?
Ela encolheu os ombros e abraçou-me.
Um abraço pequenino, apertado e completamente inesperado.
Depois foi-se embora.
Assim.
Como tinha aparecido.
Fiquei com o papel na mão.
Órfã.
Claro que era apenas uma brincadeira.
Um papel escolhido ao acaso dentro de uma caixa numa feira medieval.
E eu não sou propriamente uma pessoa que acredita em tudo o que lhe aparece escrito num papelito.
Mas sou curiosa.
O que, em termos práticos, significa que cheguei a casa e fui imediatamente pesquisar:
«Significado de ter sido órfã numa vida passada.»
Sim.
Eu fiz isto.
A menina tinha sido uma fada.
Eu precisava, no mínimo, de contexto.
Comecei a ler.
E, aos poucos, deixei de achar graça.
Dizia que a experiência de ter sido órfão numa vida passada poderia estar simbolicamente ligada, na vida atual, a uma procura muito profunda por pertença.
À necessidade de criar raízes.
A uma relação intensa com a ideia de casa.
Não necessariamente uma casa com paredes.
Casa nas pessoas.
Nos lugares.
Na sensação de reconhecermos alguma coisa antes mesmo de sabermos explicar porquê.
Falava também de autonomia.
Da capacidade de aprender a caminhar por nós próprios.
De construir aquilo que talvez, noutra história, não tenha sido possível construir.
De criar laços escolhidos.
Famílias que não dependem apenas do sangue.
Lugares aos quais decidimos pertencer.
E fiquei quieta.
Porque há brincadeiras que acertam em sítios onde não deviam saber chegar.
Fechei a página.
Voltei a pensar na menina.
Na forma como me deu a mão sem me conhecer.
Na forma como não respondeu quando perguntei pela mãe.
Na certeza com que me puxou pelo braço.
— Anda.
Talvez tudo aquilo não tenha passado de uma coincidência.
Provavelmente não passou.
Uma feira medieval.
Duas caixas.
Uma criança.
Dois papelitos.
Ela foi uma fada.
Eu fui órfã.
Fim da história.
Mas confesso que ainda hoje acho graça a uma coisa.
No meio de tanta gente, uma menina que não me conhecia escolheu-me para lhe dar a mão e levá-la até uma caixa de vidas passadas.
E eu, que tirei precisamente a palavra «órfã», fui levada até lá por alguém que, durante aqueles minutos, decidiu não largar a minha mão.
Talvez tenha sido apenas acaso.
Mas, se foi, foi um acaso muito querido.
E às vezes penso que talvez as vidas passadas, existam ou não, sirvam sobretudo para isto:
para inventarmos histórias capazes de explicar os sítios de nós que ainda não compreendemos.
Ou talvez não.
Talvez aquela menina tenha sido mesmo uma fada.
Nesse caso, espero sinceramente que um dia volte.
Tenho algumas perguntas.
E desta vez, sou eu que escolho primeiro a caixa.
É fácil imaginar-me sentado num banco de madeira, a beber uma cerveja artesenal, bem medieval, de visita a essa feira.
ResponderExcluirÉ notaria a tua surpresa, quando uma menina pega na tua mão e praticamente arrasta-te com ela até à outra banca.
Ela, está vistida de forma muito humilde. Duvido que tenha idade para andar na escola.
Tu, sobressais no meio da multidão, sabes vestir-te para a ocassião. Deves estar perto dos quarenta. Será que já és mãe?
Levo a caneca à boca, depois passo a lingua pelos lábios. Aquela cerveja é outra coisa!
Vejo que dizes que não com a cabeça, mas que cedes a um pedido dela.
Lês algo. As tuas faces perdem a cor. A tua mão fecha-se com força. Sorris para ela.
Trocam algumas palavras. Trocam sorrisos.
Abraçam-se.
Sentas-te, também num banco, rústico.
Tiraste os olhos dela por um instante mas...já não a vês.
Agora, os teus pensamentos estão presos a um pequeno papel.
Levanto-me, acabo a bebida, pousando a caneca na mesa.
Eis que, ao virar-me, uma mulher, sentada a três mesas de mim, levanta a sua caneca na minha direcção, como que brindando, um piscar de olho acompanhado de um belo e traquino sorriso.
O meu corpo é tomado por suores frios.
É como se...ela...tivesse a roupa da menina...vestida!
( Gostei muito de te ler, não resisti...Sorry! )
Fox, fui confirmar e não constava do programa da feira que os leitores podiam entrar na história, instalar-se num banco rústico e pedir uma cerveja artesanal. Estás perdoado.
ResponderExcluirQuanto aos “quase 40” resolveremos isso pelas vias legais 😂
Olá Inês
ResponderExcluirÉ tão bom quando alguém nos "dá a mão". Que nos faz pensar "talvez eu não seja tão mau assim..."
Alguém ou até um cão...
Será por acaso?...
Fico contente por não teres sido dos que falam alto durante os filmes. 🤭
Olá, Miguel Lucas
ExcluirÉ curioso... no fim, o que ficou comigo nem foi o papel. Foi a mão daquela menina. Há gestos tão pequenos que acabam por ficar connosco durante muito tempo.
Da próxima vez vou direta à banca e pergunto: "Desculpe, aceitam reclamações de vidas passadas?" 😄