A distância exata




Até onde se pode ir na direção de alguém sem verdadeiramente partir de lugar nenhum?

Às vezes penso nisto...

Qual é a distância exata entre lembrar uma voz e querer ouvi-la? Entre ter qualquer coisa para contar e imaginar, por um instante, como seria contá-la? Em que momento uma vontade tão pequena deixa de ser inocente e começa a tocar numa fronteira que não sabemos sequer onde foi desenhada?

Talvez existam coisas que não devêssemos perguntar.

Mas pergunto.

Até quando podemos sentir falta de alguém sem que essa falta signifique que nos falta alguma coisa?

Esta é a parte que não compreendo.

Podemos estar bem. Podemos amar a casa onde chegamos ao fim do dia, conhecer o som dos passos que vivem connosco, a mão que ficou quando a vida se tornou menos bonita, o rosto que assistiu aos nossos dias difíceis sem se afastar. Podemos amar tudo isso. Amar verdadeiramente.

E ainda assim.

Uma voz.

Às vezes basta a memória de uma voz.

E de repente existem tantas coisas que ficaram por contar.

Coisas pequenas. É quase sempre o que mais dói. Não as grandes revelações. Não as frases que mudariam o curso de uma vida. Apenas aquilo que aconteceu numa terça-feira qualquer. Uma coisa absurda que teria feito rir. Um livro. Uma música. Uma pergunta que apareceu demasiado tarde. Um lugar que nunca vimos e que, por alguma razão, reconhecemos.

Devias ter visto isto.

Talvez seja uma das frases mais tristes que existem.

Devias ter visto isto.

E não viste.

E eu não contei.

E depois vieram outras coisas. E outras. E fomos guardando tudo num lugar que julgávamos não existir até percebermos que algumas palavras sabem esperar durante anos sem perder inteiramente a esperança de serem ouvidas.

O que fazemos com elas?

Às vezes imagino-as sentadas numa estação. Quietas. Com pequenas malas aos pés. Já não perguntam quando chega o comboio. Talvez saibam que não chega. Talvez seja precisamente por isso que continuam ali.

Tenho uma ternura absurda por tudo aquilo que não chegou a acontecer.

Mas há casas acesas.

Há quem nos espere do lado de dentro. Há quem tenha aprendido os nossos silêncios sem exigir tradução, quem tenha ficado nos dias em que não havia auroras nem rios gelados nem qualquer beleza digna de ser escrita. Apenas dias. Os nossos. E há um amor imenso naquilo que permanece quando ninguém está a transformar a vida em palavras.

Como se atravessa uma distância sem desrespeitar quem nos esperou?

Como se diz apenas queria ouvir-te sem que essas três palavras se tornem maiores do que são?

Ou talvez sejam sempre maiores.

Talvez seja esse o perigo.

Por isso não dizemos.

E depois perguntamo-nos porque é que a saudade existe mesmo quando somos felizes.

Saudade de quê?

De alguém?

De nós?

Da pessoa que éramos quando determinada voz ainda sabia o nosso nome de uma maneira diferente?

Ou apenas de tudo aquilo que ficou suspenso num lugar sem tempo, à espera de uma conversa que nunca soube que tinha terminado?

Não sei.

Só sei que há dias em que gostaria de me sentar por um instante numa margem antiga.

Não para ficar.

Não para pedir nada.

Talvez nem para explicar.

Apenas ouvir a água.

Ouvir uma voz.

E contar, devagar, todas aquelas coisas pequenas que fui guardando sem perceber.

Depois levantar-me.

Voltar pelo mesmo caminho.

Encontrar a luz acesa.

Entrar em casa com cuidado.

E esperar que, algures, do outro lado do rio, ninguém tenha tomado o meu silêncio com esquecimento.

Comentários

  1. SE calhar, também há um amor imenso naquilo que permanece quando alguém transforma a vida em palavras.
    Agora, fica a pergunta - quel o preço a pagar?
    Gostei muito de ler te.
    HUG

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    1. Talvez todas as palavras importantes tenham um preço. As escritas apenas nos permitem escolher quando o pagar. Obrigada por acrescentares mais uma margem ao rio.

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  2. Para mim, na minha arrogância e presunção, faço destas tuas palavras os meus pedaços de escuridão.

    Tão bom caminhar nos "teus" labirintos sem medos.

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    1. Continua a caminhar por cá. Gosto de quem entra sem medo.

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  3. Recebido com carinho. Obrigada, Miguel.

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