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Desvio Impercetível

Há qualquer coisa de profundamente inquietante no desejo de capturar um instante. Como se, por um breve momento, acreditássemos que a beleza pode ser mantida imóvel antes de desaparecer. Talvez seja isso a fotografia: uma tentativa silenciosa de resistir ao desaparecimento das coisas. Nem sempre fotografamos o que vemos. Às vezes fotografamos aquilo que sentimos enquanto olhamos. A luz sobre uma parede antiga, o nevoeiro suspenso antes da chuva, uma janela acesa num lugar distante. Muitas vezes, nem é pelo objeto em si, mas pela atmosfera que o envolve. Como se existissem lugares e momentos que carregassem uma espécie de presença difícil de explicar, mas impossível de ignorar. E talvez seja precisamente por isso que me atraem coisas onde quase ninguém repara. Detalhes pequenos, silenciosos, aparentemente banais. Uma cadeira vazia junto a uma janela, tinta a desfazer-se numa parede húmida, reflexos distorcidos no vidro, sombras desalinhadas, flores já quase secas. Há algo de profundamen...

Não-linear

Há experiências que não pertencem ao tempo, apenas àquilo que deslocam. Não se deixam medir pelo antes nem pelo depois. Instalam-se fora dessa sequência previsível onde tudo costuma fazer sentido, e ainda assim alteram silenciosamente o eixo das coisas. Há um momento — quase impercetível — em que algo muda de lugar. Não por excesso, nem por falta. Apenas muda. E o que parecia fixo deixa de o ser, sem nunca chegar a quebrar por completo.  Depois, tudo continua. Ou parece continuar. Mas há uma diferença difícil de nomear, como se uma parte tivesse ficado noutro ponto, noutro ritmo, noutro lugar que não se visita, mas que também não desaparece. E é estranho como por fora nada denuncia esse desvio. Tudo permanece aparentemente intacto, sereno, até. Como se o silêncio tivesse aprendido a disfarçar o que nele se agita. Mas por dentro há uma espécie de intensidade contida — não explosiva, não urgente — apenas constante.   Não o silêncio comum — esse ainda tem forma, ainda se reconhece. Mas u...

Untitled

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Quase Nós

Há amores que não acabam. Não porque sejam eternos, mas porque nunca chegaram a existir o suficiente para ter fim. Ficam suspensos. Fora do tempo. Intocados. E talvez seja por isso que doem de uma forma tão particular — não têm um momento exato onde possamos dizer: “acabou aqui”. Não há uma memória definitiva para fechar, nem uma cena clara para revisitar. Não há erro concreto, nem falha identificável. Há apenas a ausência de tudo isso. E a ausência, quando não é preenchida, transforma-se em possibilidade. O amor que não aconteceu tem uma vantagem cruel: nunca foi testado pela realidade. Nunca passou pelos dias difíceis, pelas palavras mal ditas, pelos silêncios desconfortáveis, pelos gestos que falham. Nunca teve tempo de se desgastar. Nunca precisou de se sustentar quando deixou de ser fácil. Ficou sempre no ponto exato onde ainda era inteiro. E por isso parece perfeito. Mas não é perfeição verdadeira. É ausência de imperfeição. E há uma diferença enorme entre as duas coisas. ...

Amar sem me perder

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Há um cansaço tão antigo em mim. Não é de amar. Acho que é de me perder enquanto amo. Aprendi, a custo, que nem todo o amor é abrigo e que insistir pode ser apenas uma forma lenta de voltar à dor. Já atravessei demasiado para fingir que não sei onde termina a entrega e começa o abandono de mim mesma. Hoje, escolho ir com cuidado. Como quem caminha devagar, sentindo cada passo, pedindo em silêncio que ele seja leve. Não porque não doa, mas porque já doeu demais. Colocar limites é um gesto triste, quase solitário. Significa aceitar que aquilo que mais quero pode não sobreviver à minha lucidez. Mas sei agora que o fim inesperado de algo é menos devastador do que o regresso consciente ao lugar onde já me perdi antes. Se for para acabar, que acabe com verdade. Com o corpo inteiro, a alma presente,sem me diminuir para caber. É respeito por tudo o que já fui obrigada a aguentar e recuso voltar a ser. Serei eu  intensa demais? Sinto demais? Amo demais? Não sei gostar como se gosta de bocadin...

Há memórias que sabem a verão

Um verão que vive no sal que ficou na pele, no riso solto ao final da tarde... Lembrei-me de ti, .. ! E nessas lembranças aprendi a controlar o impulso de dizer o teu nome em voz alta.