Amar sem me perder


Há um cansaço tão antigo em mim. Não é de amar. Acho que é de me perder enquanto amo. Aprendi, a custo, que nem todo o amor é abrigo e que insistir pode ser apenas uma forma lenta de voltar à dor. Já atravessei demasiado para fingir que não sei onde termina a entrega e começa o abandono de mim mesma. Hoje, escolho ir com cuidado. Como quem caminha devagar, sentindo cada passo, pedindo em silêncio que ele seja leve. Não porque não doa, mas porque já doeu demais. Colocar limites é um gesto triste, quase solitário. Significa aceitar que aquilo que mais quero pode não sobreviver à minha lucidez. Mas sei agora que o fim inesperado de algo é menos devastador do que o regresso consciente ao lugar onde já me perdi antes. Se for para acabar, que acabe com verdade. Com o corpo inteiro, a alma presente,sem me diminuir para caber. É respeito por tudo o que já fui obrigada a aguentar e recuso voltar a ser. Serei eu  intensa demais? Sinto demais? Amo demais? Não sei gostar como se gosta de bocadinhos. Não sei o que isso é. Sou serena por fora, um turbilhão por dentro. Quem me olha vê equilíbrio, não vê o mar. Por dentro, tudo acontece ao mesmo tempo. Sinto em camadas, em ondas, em excesso. Há um turbilhão que aprendi a conter...para não assustar, para não pedir demais, para não ser “demasiado”... Hoje sinto-me tempestade. O vento parece atravessar-me a pele, faz-me tremer o corpo todo, balançada por dentro e por fora. Por fora, respiro devagar, como se nada acontecesse. Por dentro, tudo se move, tudo grita, tudo chora. Hoje sou tempestade! E ainda assim, ainda sou inteira.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Em reunião

A distância exata

A miúda do baloiço