Desvio Impercetível

Há qualquer coisa de profundamente inquietante no desejo de capturar um instante. Como se, por um breve momento, acreditássemos que a beleza pode ser mantida imóvel antes de desaparecer. Talvez seja isso a fotografia: uma tentativa silenciosa de resistir ao desaparecimento das coisas. Nem sempre fotografamos o que vemos. Às vezes fotografamos aquilo que sentimos enquanto olhamos. A luz sobre uma parede antiga, o nevoeiro suspenso antes da chuva, uma janela acesa num lugar distante. Muitas vezes, nem é pelo objeto em si, mas pela atmosfera que o envolve. Como se existissem lugares e momentos que carregassem uma espécie de presença difícil de explicar, mas impossível de ignorar. E talvez seja precisamente por isso que me atraem coisas onde quase ninguém repara. Detalhes pequenos, silenciosos, aparentemente banais. Uma cadeira vazia junto a uma janela, tinta a desfazer-se numa parede húmida, reflexos distorcidos no vidro, sombras desalinhadas, flores já quase secas. Há algo de profundamente humano nas coisas que existem discretamente, sem pedir para ser vistas. Gosto de fotografar aquilo que não tenta ser belo e que, justamente por isso, acaba por o ser de uma forma mais verdadeira. Lugares suspensos, espaços onde parece ter ficado qualquer coisa invisível. Silêncios. Contrastes entre luz e ausência. Texturas emocionais difíceis de explicar, mas que alteram subtilmente a forma como sentimos uma imagem. O detalhe importa-me porque, muitas vezes, é nele que a atmosfera se revela. Não procuro apenas uma imagem esteticamente bonita; procuro algo que transmita uma ideia, uma sensação, uma presença. Algo que permaneça mesmo depois de deixarmos de olhar diretamente para a fotografia. Gosto de criar presença sem explicar demasiado. Deixar espaço para que quem observa sinta qualquer coisa sem saber exatamente porquê. Porque algumas imagens não contam histórias de forma explícita — insinuam-nas.  A fotografia não impede o tempo de passar. Apenas cria a ilusão delicada de que certos instantes ainda continuam algures, intactos, à espera de serem novamente olhados.  Hoje revi fotografias antigas.E apercebi-me de que este fascínio pela fotografia sempre existiu em mim, embora se tenha intensificado de forma quase inexplicável há sensivelmente seis anos. Há fotografias que me devolvem histórias completas sem precisarem de mostrar quase nada. Algumas fazem-me regressar a estados de alma muito específicos ou lugares emocionais onde já não estou, mas que continuam intactos dentro da imagem. Há nelas silêncios, ausências, pequenas alegrias e também sombras difíceis de explicar. Certas fotografias conseguem trazer de volta sensações que julgávamos dissolvidas no tempo: o peso de um fim de tarde, uma melancolia subtil, uma paz momentânea, a estranha beleza de algo que sabíamos transitório mesmo enquanto acontecia.

E depois existem as fotografias que ainda não tenho.
As que imagino antes mesmo de existirem.

Quero a minha silhueta fotografada de forma quase impercetível, refletida num vidro antigo ao final do dia, dissolvida no nevoeiro, atravessada por luzes ténues, confundida com a própria paisagem. Não como centro da imagem, mas como presença silenciosa. Como se o corpo existisse apenas o suficiente para deixar vestígio. Gosto da ideia de fotografias onde não se percebe imediatamente tudo o que está a acontecer. Onde a figura humana surge desfocada, incompleta, quase suspensa entre aparecer e desaparecer. Uma silhueta parada diante de uma janela iluminada. Um reflexo fragmentado na água. A sombra alongada num corredor vazio. Como se a fotografia captasse não exatamente uma pessoa, mas aquilo que ficou dela naquele instante. Talvez seja isso que mais procuro: imagens que não expliquem demasiado. Fotografias que transmitam uma sensação antes de transmitirem uma certeza. 

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