Em reunião
Há quem entre numa reunião com um bloco de notas. Eu entro com um cérebro que se comporta como um navegador com cinquenta separadores abertos. Todos ativos. Nenhum relacionado entre si. À minha volta está tudo muito organizado. Há pessoas a falar com clareza, a apresentar ideias, a construir raciocínios sólidos, quase geométricos. Eu acompanho.
Juro que acompanho. Mas a minha mente tem um sistema operativo próprio.
Eu estou a olhar para um agrafador. Não um agrafador qualquer. Aquele agrafador. Pesado. Cinzento. Ligeiramente gasto pelo tempo. E, sem qualquer autorização, o meu cérebro pergunta:
Quem foi a primeira pessoa da História que olhou para duas folhas soltas e pensou: Isto precisava era de um pequeno pedaço de metal para as convencer a ficar juntas...
Volto. Ainda estão a falar. Aparentemente ninguém questionou a existência dos agrafos. Curioso.
Cinco minutos depois alguém partilha um documento. Toda a gente lê. Eu também. Até reparar que uma colega desenha espirais no canto da folha. Começo imediatamente a imaginar que aquelas espirais são uma linguagem secreta. Talvez esteja a pedir ajuda. Talvez esteja simplesmente aborrecida. Nunca saberei. Mas durante uns segundos estou completamente envolvida no mistério.
Depois alguém pergunta:
— Concordam?
Embora não saiba se estou a concordar com a proposta ou com a teoria das espirais. Nas reuniões online a situação agrava-se. Há demasiadas casas no ecrã. Cada quadradinho é um universo.
Uma vez passei dez minutos a tentar perceber porque é que um colega tinha uma única colher pousada em cima da estante. Uma colher. Nem um conjunto. Uma. Prateada. Sozinha. Parecia estar de castigo.
Enquanto toda a gente discutia assuntos importantes, eu construía hipóteses.
Será decorativa?
Será sentimental?
Será a colher da sopa mais marcante da vida dele?
No final da reunião continuava sem resposta. Mas emocionalmente já estava muito ligada à colher.
Há também aqueles momentos em que alguém usa uma expressão perfeitamente normal.
— Temos de fechar este assunto.
Fechar? Como assim fechar? Imagino imediatamente uma senhora muito séria a colocar um cadeado num tema e a escondê-lo numa cave.
"Pronto. Nunca mais se fala disto."
A reunião continua. O meu cérebro também. Mas por estradas completamente diferentes.
Às vezes olho para uma caneca em cima da mesa e penso que ela deve conhecer todos os segredos daquela sala. Está presente em todas as reuniões. Ouve tudo. Nunca comenta. Que autocontrolo extraordinário. Se as canecas falassem, metade das instituições fechava. Há dias em que alguém fala durante vinte minutos. No fim resume tudo em duas frases. E eu penso:
Porque é que não começou pelo fim?
Depois lembro-me de que faço exatamente o mesmo quando conto uma história. Dou contexto. Faço introdução. Apresento personagens. Construo ambiente. Abro parênteses. Fecho mal os parênteses. Volto atrás. Faço uma metáfora. E só depois respondo ao que me perguntaram. Portanto não julgo ninguém.
A verdade é que vivo rodeada de pessoas extremamente racionais. Pessoas que ouvem uma ideia e produzem uma conclusão. Eu ouço uma ideia e produzo uma floresta. Com pássaros. E nevoeiro. E uma senhora misteriosa que tricota junto a um lago sem que ninguém saiba porquê.
Depois volto à realidade exatamente a tempo de dizer:
— Sim, faz sentido.
E faz. Porque, por mais estranho que pareça, no meio daquele carnaval mental, eu ouvi tudo. Só que, enquanto os outros fizeram um percurso em linha reta, eu dei a volta ao mundo, visitei três continentes, conversei imaginariamente com uma colher solitária, interroguei um agrafador sobre o sentido da sua existência e atribuí uma personalidade à caneca do café.
Habita na tua mente um espírito filosófico.
ResponderExcluirPor tudo o que consideras sagrado, acorrenta-o! Não o deixes fugir.
Uma vénia e um beijo.
Recebo a vénia com um sorriso e retribuo o beijo com carinho. Obrigada pelas tuas palavras e pela companhia. Quero muito seguir o teu blogue, mas ainda não consegui perceber como fazê-lo 🤦🏻♀️falta de jeito com a plataforma, suponho. Ainda assim, continuo a passar por lá e a ler-te.
ExcluirOk - já parei de sorrir...
ResponderExcluirAgora, essa cena da colher solitária - bem, essa tua colega deve ter, mais ou menos, a minha idade.
É que, a minha mãe tinha uma quantas colheres, de prata, solitárias, algumas expostas em caixinhas com fundo em pano de ceda fofinho. Acreditando na minha progenitora, foram-me dadas aquando do meu batizado. Supostamente, era tradição e simbolizava prosperidade, protecção e desejo que a criança nunca passasse necessidades.
Pronto - se calhar não é nada disto e foi prenda do Ex que queria que ela se dedicassa mais às coisas da cozinha...
Bem, gostei muito te ler, como sempre...Puxa! Desculpa...é que o agrafador acaba de suicidar-se porque não consegui realizar o seu papel de casamenteiro! E agora???
Voltando a voltar, continua assim, com essa tua imaginação fora do vulgar.
I'm so sick of ordinary people!
HUG!
A partir de hoje vou tratar todas as colheres com respeito. Nunca se sabe qual delas foi oferecida num batizado e anda há cinquenta anos à espera que alguém reconheça a sua missão espiritual enquanto mexe sopa.
ExcluirQuanto ao agrafador, recuso-me a acreditar que se suicidou. Fugiu com um clip. Foram vistos pela última vez numa papelaria em Espanha, a comprar elásticos e post-its, determinados a começar uma vida nova, longe das expectativas da sociedade e das folhas A4. 🤣🤣
Pois, por esta altura devem estar numa praia em Espanha, a fazer yoga e a planear uma nova vida como influenciadores de utensílios de escritório.
ResponderExcluirO próximo passo? Convencer as tesouras a cortar com as amarras da monotonia!
Entretanto, o furador anda em terapia porque ninguém o convidou para a fuga e as borrachas continuam a apagar o passado sem nunca resolver os seus próprios problemas. 🤣
ExcluirProntos já chega 🤣
ResponderExcluir❤️
ResponderExcluirOlha, foi em anónimo...
ExcluirOlá, Miguel. Obrigada pela visita e comentário. Beijinhos
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