A miúda do baloiço
Ao fundo do jardim, onde a neblina da manhã parecia permanecer mais tempo do que no resto do mundo, havia um baloiço antigo suspenso sob uma árvore enorme de ramos tortos cobertos de hera húmida. Movia-se lentamente, mesmo quando o vento parava por completo, como se obedecesse a um ritmo invisível escondido naquele lugar. Sentada nele estava uma miúda morena de cabelos compridos, descalça, envolvida num vestido branco rendado que parecia tecido da própria névoa. A renda deslizava suavemente sobre as pernas e confundia-se com a luz pálida da manhã, dando-lhe um aspeto quase irreal, como se pudesse desaparecer caso alguém tentasse aproximar-se demasiado. No colo descansava um caderno antigo de capas gastas, preso por folhas soltas e pequenos pedaços de papel esquecidos entre as páginas. A mão movia-se depressa, impulso após impulso, escrevendo frases que pareciam surgir antes mesmo de serem pensadas. Então um pequeno pássaro escuro pousou delicadamente sobre o caderno aberto. O pássaro inclinou a cabeça para as páginas como se estivesse a ler. Depois começou a bicar lentamente certas palavras, apenas algumas, arrancando pedaços minúsculos da tinta ainda húmida até as frases ficarem incompletas. Como se soubesse exatamente quais memórias deviam permanecer escritas… e quais precisavam de desaparecer. Os outros pássaros continuavam escondidos nas árvores, cantando ao longe de forma estranha, quase sincronizados com o piano distante da música. Havia pequenos brilhos suspensos entre os ramos...talvez pólen atravessado pela luz, talvez qualquer outra coisa. Ao longe, da pequena pastelaria da esquina, espalhava-se o calor suave do café acabado de fazer, misturado com o perfume húmido da terra e das flores fechadas pela madrugada. Ouvia-se aquele som grave e profundo, semelhante à respiração lenta de uma casa abandonada há séculos. Depois o piano surgia devagar, nota por nota, como gotas de luz a cair dentro de água escura. Cada som parecia alterar ligeiramente o jardim. As folhas estremeciam sem vento. A névoa movia-se devagar entre as pedras. E o baloiço continuava naquele movimento lento, quase hipnótico, como um pêndulo preso entre dois mundos. Ela observava as páginas em silêncio enquanto o pequeno pássaro permanecia ali, imóvel, pousado exatamente sobre uma frase que ela parecia incapaz de terminar. Atrás do piano começavam a surgir sons longos e desfocados, semelhantes a vozes atravessando água. As cordas apareciam depois, espalhando-se pela música como nevoeiro sobre um lago escuro. E ela continuava a escrever. Não parecia criar histórias. Parecia lembrar-se delas. Como se cada frase viesse de um lugar antigo que existia apenas durante aquelas manhãs silenciosas, entre o canto dos pássaros e a névoa suspensa no jardim. Vista ao longe, descalça naquele baloiço antigo, com o vestido branco perdido entre a bruma e o pequeno pássaro pousado sobre o caderno aberto, ela parecia menos alguém pertencente ao mundo real e mais uma dessas figuras que aparecem apenas por instantes . Exatamente no espaço entre o sonho e a memória.
Olá Inês.
ResponderExcluirPasso aqui, neste teu lugar, pela 1ª vez.
Certamente, quem passar por aqui, não ficará indiferente.
Tens o dom de captar a nossa atenção e transportar-nos para onde tu queres, tal a envolvência que crias com palavras cuidadosmente entrelaçadas que transbordam de sentimentos e emoções que preenchem o leitor de sentimentos, que, curiosamente, despertam...dentro de nós.
Voltarei!
Olá, Fox. Que bom ter-te por aqui. Obrigada pelas palavras tão generosas e pela companhia. Fico feliz por este lugar te ter tocado de alguma forma. Volta sempre. Beijinhos
Excluir"Exatamente no espaço entre o sonho e a memória."
ResponderExcluirIsto.
Exatamente a minha visão e procura.
Beijo e abraço.
Fleuma, o mais estranho é que, às vezes, é precisamente nesse intervalo indefinido que tudo se torna mais nítido. Beijo e abraço.
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