Mas quem é que termina uma relação para ficar sozinho?

Quem Inês? Quem?


Quem é que está metade da sua vida com alguém que escolheu para amar e descobre no correr dos dias que, afinal, têm pouco ou nada em comum?


Questionava-me. Devo admitir que levantar questões é algo que faço com frequência e por vezes basta uma musica, uma palavra, um olhar para acionar o gatilho. 


Não escolhemos por quem nos apaixonamos, é certo, mas permanecer ao lado de alguém é sim uma escolha que fazemos. Ambos os dois. Sim, eu sei. Ou "ambos" ou "os dois" mas as figuras de estilo servem para quê então? 


Fomos dois adolescentes cheios de vida e sonhos. Uma amizade pautada por momentos que não se voltarão a repetir. Vividos numa fase tão desafiadora quanto prazerosa. A saltar escadas de mãos dadas com patins em linha nos pés. A primeira queda juntos. A dor de uma entorce no tornozelo transformada em risos e carícias que atenuam a dor. A irreverência de dois miudos que se apaixonaram com uma venda nos olhos, evitando ao máximo descobrir o verdadeiro carácter um do outro. Embelezando-o com qualidades que queremos que tenha. O meu melhor amigo. O meu primeiro amor. 


O crescer de mãos dadas com aquele que julgamos ser "a pessoa" e a dada altura parece que estamos a viver com um estranho.


Como? Como assim, um estranho? E assim se gera um sentimento novo. Onde tudo o que parecia ser harmonioso dá lugar a um campo de batalha. 


Ouço o telemóvel tocar. Sinal de mensagem. Vejo que é uma mensagem tua mas optei por não a abrir.  "Agora não. Não vou abrir. Não estou para ninguém. Hoje não. Se for algo importante eu sei que me ligas e eu, como sempre, atenderei. " Disse para mim mesma enquanto molhava lentamente as bolachas de canela no café. 


Levantei-me assim que terminei o café e as bolachas, vesti um pullover branco com capuz, uns calçoes, calçei as sapatilhas e peguei na mochila. Enquanto me dirigia ao carro ouvi um miar de um gatinho que rapidamente se aproximou das minhas pernas e começou a roçar-se nelas. Era como se eu tivesse sido escolhida para sua dona. Primeiro a cabeça, depois o tronco, por último a cauda. Baixei-me o máximo que pude e perdi-me naquele olhar felino e nariz pequenino. O olhar dos gatos têm o poder de atravessar-nos a alma. Não resisti em acariciá-lo ao de leve entre as orelhas e ir descendo até o pescoço, bochechas e queixo. E ele, fechou os olhos de contente e começou a ronronar... Adoro gatos. E aquele gatinho tinha-me devolvido o sorriso e a tranquilidade. Despedi-me dele, levantei-me, abri o carro, guardei a mochila e segui viagem.


Conduzia ao som do instrumental "something to remind you" enquanto as lágrimas me escorriam pelo rosto.



"Cheguei, finalmente! " Disse ainda dentro do carro. Limpei o rosto e saí. Gostava de ir com frequência aquele lugar. Era uma espécie de "casa" para mim. 


Em silêncio e já muito perto do mar, sentei-me descalça de pernas cruzadas e deixei-me sentir as gotículas de água salgada trazidas pelo vento, levando aos lábios a mão humedecida como se quisesse impedir que as palavras me saltem da boca. 


Estava triste. Profundamente triste. Já tinha passado algum tempo e já tinha conhecido outras pessoas. Não fazia sentido sentir-me assim. Ainda por cima tinha sido eu a tomar a decisão de terminar o relacionamento. Mas, lá está. Terminei o relacionamento porque preferi estar sozinha do que continuar infeliz mesmo não tendo escolhido o caminho mais fácil.


Há muitas razões que fazem os casais permanecerem juntos. Não julgo. Simplesmente não me revejo. 


É uma sensação estranha porque de repente temos toda a liberdade e não sabemos o que fazer com ela. É estranho. Muito. Forcei-me a sair da zona de conforto. Forcei-me a viver! Isso, forcei-me a isso e no meio disso tudo quase voltei a apaixonar-me mas tão depressa o senti como tudo se desfez num abrir e piscar de olhos quando me assustaste com um pedido numa noite de lua cheia. Desculpa.


Foi como se acordasse na manhã seguinte e percebesse que não era bem assim. Tremi de medo.


Já dizia alguém que " a mulher escolhe com quem vai para a cama e o homem decide com quem vai casar". 


Hoje há uma certa anedonia em mim. Continuo a querer estar sozinha mas esta anedonia preocupa-me. Este desacreditar assusta-me. Preferia continuar a ver unicórnios e a escrever canções de amor. Não é falta de oportunidade. Não se trata de não conhecer pessoas interessantes. Não é nada disso. Eu não quero nada. Nada. E eu não era assim. 


Guardo o caderno e a esferográfica na mochila e meto-me de novo no carro.


Desta vez, viajo sem destino...virando a cara para o lado ao mais pequeno sinal do universo. As coincidências/acasos/destino , o que os matemáticos chamam de probabilidades.  


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