Há quem entre numa reunião com um bloco de notas. Eu entro com um cérebro que se comporta como um navegador com cinquenta separadores abertos. Todos ativos. Nenhum relacionado entre si. À minha volta está tudo muito organizado. Há pessoas a falar com clareza, a apresentar ideias, a construir raciocínios sólidos, quase geométricos. Eu acompanho. Juro que acompanho. Mas a minha mente tem um sistema operativo próprio. Enquanto uma colega diz: — Precisamos de simplificar os procedimentos. Eu estou a olhar para um agrafador. Não um agrafador qualquer. Aquele agrafador. Pesado. Cinzento. Ligeiramente gasto pelo tempo. E, sem qualquer autorização, o meu cérebro pergunta: Quem foi a primeira pessoa da História que olhou para duas folhas soltas e pensou: Isto precisava era de um pequeno pedaço de metal para as convencer a ficar juntas... Volto. Ainda estão a falar. Aparentemente ninguém questionou a existência dos agrafos. Curioso. Cinco minutos depois alguém partilha um documento. Toda a ...
Até onde se pode ir na direção de alguém sem verdadeiramente partir de lugar nenhum? Às vezes penso nisto... Qual é a distância exata entre lembrar uma voz e querer ouvi-la? Entre ter qualquer coisa para contar e imaginar, por um instante, como seria contá-la? Em que momento uma vontade tão pequena deixa de ser inocente e começa a tocar numa fronteira que não sabemos sequer onde foi desenhada? Talvez existam coisas que não devêssemos perguntar. Mas pergunto. Até quando podemos sentir falta de alguém sem que essa falta signifique que nos falta alguma coisa? Esta é a parte que não compreendo. Podemos estar bem. Podemos amar a casa onde chegamos ao fim do dia, conhecer o som dos passos que vivem connosco, a mão que ficou quando a vida se tornou menos bonita, o rosto que assistiu aos nossos dias difíceis sem se afastar. Podemos amar tudo isso. Amar verdadeiramente. E ainda assim. Uma voz. Às vezes basta a memória de uma voz. E de repente existem tantas coisas que ficaram por contar. Coisas...
Ao fundo do jardim, onde a neblina da manhã parecia permanecer mais tempo do que no resto do mundo, havia um baloiço antigo suspenso sob uma árvore enorme de ramos tortos cobertos de hera húmida. Movia-se lentamente, mesmo quando o vento parava por completo, como se obedecesse a um ritmo invisível escondido naquele lugar. Sentada nele estava uma miúda morena de cabelos compridos, descalça, envolvida num vestido branco rendado que parecia tecido da própria névoa. A renda deslizava suavemente sobre as pernas e confundia-se com a luz pálida da manhã, dando-lhe um aspeto quase irreal, como se pudesse desaparecer caso alguém tentasse aproximar-se demasiado. No colo descansava um caderno antigo de capas gastas, preso por folhas soltas e pequenos pedaços de papel esquecidos entre as páginas. A mão movia-se depressa, impulso após impulso, escrevendo frases que pareciam surgir antes mesmo de serem pensadas. Então um pequeno pássaro escuro pousou delicadamente sobre o caderno aberto. O pás...
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